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sábado, 16 de novembro de 2013

O céu de antes


Os trabalhos de autoria de Tales Bedeschi, aqui reunidos, podem ser fruídos através de duas chaves que aparecem indicadas desde o título de sua exposição individual: espaço (“céu”) e tempo (“antes”). De prima, poderia ser dito que as imagens, aqui reunidas, lidam com o tópico da paisagem muito problematizado pela história da arte. Um segundo olhar, porém, incentiva o espectador partir dessa questão e circunscrevê-la melhor - mais precisamente do que a paisagem, se trata de um ensaio sobre o céu.

Através da insistência do olhar do artista, o observador se vê diante de diferentes modos de representação do céu. Em dado momento, ele pode ser azul e produzido pela serigrafia, já em outro ele aparece como um ícone através do acúmulo de nuvens xilogravadas. As aparições desse céu não se dão apenas de modo explícito, mas também funcionam como índice e nos lembram de sua inevitável relação com luz e sombra. Seria o céu pano de fundo para o sol ou o astro-rei seria apenas um detalhe luminoso, quando confrontado com a extensão da atmosfera? Tudo isso é uma questão de ponto de vista.





Não se trata de um céu qualquer, mas aquele “de antes”. Antes quando? Essa referência ao tempo seria um modo de colocar esses trabalhos sob uma perspectiva do artesanal, do fazer com as mãos, e trazer, para a produção contemporânea, a possível permanência da gravura? Ou ela diria respeito à tentativa do homem de apreender a passagem do tempo? Sem respostas precisas, algumas nuvens se sobrepõem e escondem prédios de modo fabuloso dentro das margens de uma folha de papel, ao passo que as discretas sombras de uma grade se transformam em um desenho, com dimensão pública, resguardadas pela fotografia.

Tales Bedeschi compartilha com o público sua curiosidade e inquietude quanto a essa faixa de cor que reina sobre nossos corpos e edificações dia após dia. Em vez de empreender uma pesquisa pela perspectiva da ciência, ele opta pelas formas minuciosas das linhas das goivas, do reticulado da serigrafia e do armazenamento de pequenas parcelas do ar de sua cidade natal, Belo Horizonte.



O céu nunca volta de modo preciso à sua configuração anterior e cabe ao homem, aquele que um dia ergueu pirâmides e ainda hoje conversa com divindades celestes, transformá-lo em imagem e, por consequência, em monumento.



(texto produzido originalmente para a exposição "O céu de antes", realizada no Sesi Arte Contemporânea, em Curitiba, entre 12 de novembro e 19 de janeiro de 2014)

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